- Vam’bora, vamb’ora, tá na hora, vamb’ora, vamb’ora…
- São sete horas e quinze minutos.
- Repita!
- Sete horas e quinze minutos.
- Quinta-feira, 12 de março. Os norte-americanos aguardam ansiosamente o testemunho de Mônica Lewisnki, que pode comprometer ainda mais o presidente Bill Clinton…
- Meninas, meninas! Estamos atrasados. Vocês tem de ser mais rápidas pra levantar.
- É culpa da Verônica, pai. Ela anda muito lerda, viu?
Resolveu ir no banco de trás, ao contrário do que sempre fazia. Gostava de sentar na frente, ao lado do pai. Ia conversando sobre os diversos assuntos, animadamente. A irmã mais nova, no banco de trás, chegava a ficar irritada. Desta vez, era diferente. Nem a provocação da irmã foi suficiente para tirá-la do silêncio.
- Filha, tá tudo bem? – preocupou-se o pai.
- Hãnrã.
O asfalto corria rapidamente. A cabeça pendente, amparada no vidro embaçado pela respiração. Quinze minutos se passaram. O olhar fixo no asfalto.
- Chegamos! Desçam que ainda dá tempo de pegar a primeira aula!
Michele abriu a porta e saiu correndo. Nem esperou a irmã. Verônica continuou imóvel.
- Filha!
- Pai, eu não quero ir pra escola hoje.
- Mas Verônica, já faz 15 dias que você não vem.
- Então, pai, um dia a mais, um dia a menos não vai fazer diferença. Só hoje, por favor.
- Por que isso? Você sempre gostou da escola, dos seus colegas.
- Também não é assim. Eu só não estou me sentindo muito bem ainda.
- Tem certeza?
- Tenho.
- MICHELE!
- QUE PAI?
- SUA IRMÃ NÃO VAI. MAMÃE VEM TE BUSCAR!
- TÁ!
- Vem pra frente, então, filha.
- Não, prefiro ficar aqui. Posso ir com você pra o escritório? Mamãe não vai gostar de me ver em casa. Não, melhor… eu vou pra casa, sim.
- Casa ou escritório?
- Casa, casa.
- Você ouve agora My heart will go on, com Celine Dion, tema do filme Titanic.
Desceu do carro na frente do prédio. Acenou para o pai, que foi se distanciando com o carro. Fez menção de entrar. Assim que o pai saiu do seu campo de visão,Verônica deu meia volta. Há poucos metros do prédio, parou numa vendinha, comprou algumas balas, um sonho de valsa. Pôs na mochila e saiu caminhando por quatro quarteirões. Entrou no shopping que ficava próximo a sua casa, passou numa revistaria, comprou uma revista Capricho, sentou na Praça de Alimentação, comeu seu bombom. Ficou ali por cerca de duas horas. Voltou para a casa.
Ao abrir a porta, a mãe apareceu na porta da cozinha:
- O que aconteceu, filha? Por que você tá em casa uma hora dessas? Veio sozinha?
Verônica não respondeu. Foi direto para o quarto. Entrou bateu a porta. Ela não conseguia assimilar o que estava se passando. Sentia-se estranha, irritada, fora do contexto. Não queria ser a pobre coitada doente da casa; aliás, não queria nem ser doente.
***
Confira na próxima semana o quinto capítulo.


[...] Agosto 9, 2008 de luoncken Verônica entra começa a entrar em crise, fugindo das situações normais da vida. Confira. [...]