Diabetes: diagnóstico

Uma grande amiga minha foi diagnosticada na última semana com Diabetes. Nesses casos, não tem jeito, eu acabo sempre sendo a referência. Não sou médica e não estou apta a fazer diagnóstico, mas diante do 188 de jejum e um A1C de 8.4, não havia como negar… claro, ela já está com médico marcado, vai levar todos os exames, tudo direitinho. Mas, como já sabemos, tanto a assistência pública quanto privada de saúde tem deixado muito a desejar. A consulta é só daqui a duas semanas. E até lá? Ela comprou um medidor de glicose. Eu a orientei a marcar as glicemias de jejum e pós-almoço e jantar até o dia da consulta, e fazer um diário alimentar para levar ao médico e à nutricionista, assim, ela já teria informações preciosas para esses profissionais trabalharem em conjunto com ela na mudança de estilo de vida (a coisa mais difícil nesta vida). Eu a acalmei e disse que ela pode ter uma vida muito mais saudável do que muita gente que não tem diabetes. Isso não é mentira, nem é querer florear as coisas, ou pôr lente cor de rosa. Não. Não. Não. Isso é realidade. Veja, temos de fazer mais exames, temos de cuidar do que comemos, temos de incluir atividade física no dia a dia. É difícil? É. Mas eu tenho um bom exemplo em casa de como é possível: minha mãe com Diabetes há 30 anos e que tem uma saúde de ferro. Eu mesma com 14 anos de diagnóstico e sem nenhuma complicação, e com uma excelente saúde. Vou ser sincera, não sei se estaria tão saudável se não fosse tivesse diabetes…

A minha amiga ficou ainda mais angustiada com diagnóstico porque ela teve familiares que morreram em decorrência do diabetes mal tratado. E eu frisei para ela: “mal tratado, e isso não vai acontecer com você”. Mais uma vez repito: não é fácil ter disciplina e consciência, mas temos de bater nesta tecla do cuidar.

Ela também começou a achar que poderia se curar e procurar milagres na Internet. Claro, nesse mundo virtual temos de tudo, e ela encontrou um profissional charlatão que promete curar o diabetes. Mas como eu sou a referência, já a alertei sobre as reais intenções do sujeito. E quem não tem para quem perguntar? Quantas pessoas desesperadas esse cara (que se apossou do meu domínio na internet, inclusive) engana?

Nesta primeira semana de medição, ela já melhorou consideravelmente a glicose no sangue. Por que? Pelo simples fato de medir? Não. É que medir e fazer diário alimentar e de rotina te levam a perceber o que mexe mais com a sua glicemia, te leva a se alimentar melhor, leva a fazer atividade física. Por isso o monitoramento é tão essencial. E o SUS deveria dar insumos de medicação, com a devida orientação, também para quem não usa insulina. Seria uma forma de evitar complicações e o avanço da doença (lembro que só quem usava insulina podia ter acesso ao medidor e fitas pelo SUS, vou pesquisar se alguma coisa mudou).

Não é fácil receber o diagnóstico de uma doença crônica. É importante ter um suporte e uma rede de apoio. Por isso os blogs de diabetes e as entidades do setor são tão importantes, para disseminar informações corretas. E as pessoas que têm a doença e compartilham suas experiências têm também um papel fundamental para que quem acabou de receber o diagnóstico não se sinta tão só e desamparado.

No fim da nossa última ligação, ela disse que o que a tranquilizava era a nossa convivência. Ela me acompanhou desde o início do diagnóstico e sabe que é possível Viver com Diabetes.

“Mas, pensa, se não fosse tudo isso, talvez, tu não fosse essa pessoa massa que tu é”

Foi essa a resposta do pai de Briza Mulatinho quando ela disse que não aguentava mais viver com Diabetes. Acolhimento. Amor. Cuidado. São coisas que fazem diferença no tratamento.

Briza é de Recife e foi uma das primeiras seguidoras do meu blog, antes de Facebook, há 11 anos. Aqui no blog criamos um Fórum e era ali que trocávamos ideias. Eu, Briza, Roberta (do Japão), e mais um monte de gente bacana. E foi naquele Fórum que descobrimos que não estávamos sozinhas. Veio o Face, o meu contato e de Briza se estreitou. Ela é de uma sensibilidade ímpar, se expressa com as palavras como poucos, com muito amor e intensidade. E ela mandou este relato lindo aqui para o Viver com Diabetes

Sou diabética tipo 1 há 23 anos. Não vamos especular, que idade e um negócio sério… Mas, me descobrir portadora de uma doença crônica em 94, não foi nada fácil. Não que seja em 2017, mas deixa eu explicar: nessa época, a gente não tinha acesso às informações que tem hoje. Em casa, ninguém entendia como uma adolescente saudável tinha desenvolvido um problema tão sério, de uma hora pra outra. As insulinas não eram tão eficientes. Os insumos muito mais caros. Produtos diet, puffff, difíceis de encontrar e impossíveis de comprar pra quem não tinha lá muita grana. Fora isso, não fiz terapia, não participei de grupos de apoio, aprendi a lidar sozinha com todo processo do que comer, quando, de quanto insulina tomar, dos exames que tinha que fazer e essa rotina que a maioria de vocês conhece tão bem. Paralelamente, ouvia absurdos: “tão novinha e tão doente”, “nunca vai ter saúde na vida”, “eita, vai acabar tendo que amputar as pernas”, “meu avô morreu diabético, cego e com os rins sem funcionar”.
 
Vinte e três anos depois, não tenho nenhum problema adicional por causa da diabetes, nunca fiquei interna, tive hipo e hiperglicemias que consegui dar conta sozinha. Ok, faço um controle rigoroso e sei do cansaço que dá. Tive Síndrome do Pânico e fui várias vezes pra emergência, certa de que tava morrendo. Hoje, faço análise, mas por outros motivos, porque a vida é muito mais que o pâncreas não funcionar. A cabeça e o coração, às vezes, também emperram. E sim, tô falando figurativamente, não se assustem.
 
Mas, em muitos, muitos momentos, achei que a vida seria mais fácil sem precisar ter esse cuidado constante. Ah, só pra esclarecer, minha glicemia é dessas complicadas que vai de 20 a 200. Então, meço umas 10 vezes por dia pra saber o que fazer: comer, não comer, comer o quê, tomar insulina, qual, quanto. Já chorei e chorei e chorei pensando nisso. Mais de cansaço, que de qualquer outra coisa. Por ter que ir trabalhar e agir normalmente com glicose lá pelos 400. Por acordar de madrugada com glicose super baixa e não querer incomodar ninguém. Pelos exames que a gente faz e tem um medo danado do resultado. E podia continuar aqui, fazendo uma lista gigante…
 
Acontece que, na maior parte do tempo, a gente faz isso meio no automático, mas quando para pra pensar “puxa vida”, né? Numa dessas vezes, conversando com meu pai, falei a respeito, que não queria, que era um saco, que não aguentava, que me sentia exausta. Aí, ele disse: “mas, pensa, se não fosse tudo isso, talvez, tu não fosse essa pessoa massa que tu é”. E eu ri. E senti calorzinho no peito. E pensei: “né, que é mesmo?”.
 
Certamente, não seria. Porque foi um susto pra mim, em 94, descobrir que nem sempre a gente vai ao médico, ele passa um remedinho e a gente fica boa. Às vezes, não fica. Mas, foi aí também que aprendi o quanto a vida é frágil e urgente e a gente precisa aproveitar tudo muito! Porque uma chance que se tem agora, pode não se repetir. Aprendi também que por mais que as pessoas amem e cuidem da gente, a dor e a alegria (e isso vale pra tudo) são absolutamente pessoais e intransferíveis. Então, segue teu coração. Vai em frente, vai na fé, na intuição, que dá certo. E caso não dê – também acontece – foi uma experiência, um aprendizado, uma história pra contar.

O fato é que a diabetes faz parte da minha vida, mas não é o centro dela. Nunca deixei de fazer absolutamente nada por causa disso. Pelo contrário, acho que fiz muito mais. Pra me provar capaz. Matando não um, mas vários leões por dia. E isso é uma riqueza na vida. Eu acho. E queria que tu entendesse e achasse também. Às vezes demora pra ficha cair, mas cai. Às vezes, a gente fica pra baixo e acha que é uma droga isso tudo, e é.
 
Mas, olha, todo mundo nesse mundo tem problema. E todo mundo nesse mundo vai ter que, de um jeito ou de outro, lidar com ele. Ou com eles, melhor dizendo. O negócio é descobrir o seu jeito de fazer isso. Sempre ajuda tentar se aceitar e entender que tudo que você traz consigo é parte de quem você é. E vou te contar um segredo: você é do jeitinho que tem que ser. Assim, exatamente.

Ouvir o outro e dar apoio nunca é perder tempo. O diabetes pede escuta!

Eu tenho uma vida pra lá de atribulada. Sou mãe, profissional, tenho uma empresa, e faço praticamente tudo nela. Tenho uma família grande (irmãos/mãe) e volta e meia alguém precisa de um socorro. Tenho uma sogra que requer atenção, e como ela não tem filha, só filhos, eu acabo dando o apoio que ela precisa. Faço muitas coisas no meu trabalho, muitas mesmo, porque a empresa é pequena, e aprendi a desempenhar atividades que vão muito além do jornalismo (desde TI, passando por direção de arte, custos, relação com fornecedores, processos para os clientes). Tenho de gerenciar o diabetes, a casa, o filho. Educar, cuidar, ser mãetorista… O bom disso é que ando muito na rua. Adoro rua! E tenho o blog. Deixei um pouco de lado por um tempo, agora que o filhote já está com seus 7 anos, estou voltando aos poucos.

São 10 anos de blog e o que eu mais sinto é que as pessoas precisam de escuta. Uma escuta atenta e interessada. Elas precisam falar das suas dores, dividir suas angústias, e também suas alegrias e conquistas. O diabetes pede escuta! Temos sim uma vida atribulada e nossos problemas, mas ouvir o outro e dar atenção, respeitar a dor do outro nunca é perda de tempo. Pode ser que eu demore para responder. Pode ser que eu não consiga dar conta de tudo. Mas eu tento. E, quando abro meus ouvidos, quando entrego uma pequena parte do meu tempo para escutar e responder alguém, quem sai ganhando sou eu.

Atenção é generosidade! Esteja aberto para ouvir. Falar e compartilhar alivia dores. Esteja aberto para falar!

“Qual é o melhor exercício? Aquele que você adere!”, Rosana Radominski, durante o Congresso Brasileiro de Obesidade

Pensa bem, o que adianta você insistir em fazer uma atividade que não gosta e desistir uma semana depois. Mais vale você investir em algo que dê prazer. E se for algo incômodo para você, que seja breve. A adesão ao tratamento é o mais importante. Aderindo, e começando a ver os resultados, você é capaz de seguir em frente. E até aderir a outras atividades menos prazeirosas com o tempo.

Você gosta de jogar futebol? Ok, uma partidinha com os amigos duas vezes por semana já vai fazer uma baita diferença. E, aí, quem sabe, você não emenda um treino resistido. Gosta de caminhar? Comece a fazer mais coisas a pé, deixe o carro em casa, use a bike, desça um ponto de ônibus antes, use as escadas. Com o tempo, e mais disposição, pode ser que você inclua outras atividades na rotina.

Durante o Congresso de Obesidade, que este ano foi em Recife, no mês de abril, a endocrinologista Rosana Radominski, de Curitiba, abordou o assunto. Para ela, o melhor exercício é aquele que o paciente adere. E lembrou que, para uma pessoa com obesidade grave, uma caminhada já é um exercício e tanto. Não adianta prescrever exercícios que os pacientes não vão aderir.

Eu voltei à atividade física pelo tênis. Fiquei um tempão só no tênis, duas vezes por semana. Depois, acabei emendando yoga, musculação, esteira. Hoje, substitui a musculação por um treino de alta intensidade, que dura 10 minutos, mas faz uma baita diferença. Quero fazer dança e por aí vai…

O que você gosta? Pense, sinta e comece!

Perda de peso sustentada: exercício físico, controle alimentar, controle do diabetes, apoio profissional

Não teve dieta maluca, nem dieta da moda. Não teve treino de horas, nada mirabolante. O que teve?

Como consegui perder 10 quilos nos últimos sete meses:

  1. Teve disciplina, teve treino dentro das minhas possibilidades e tempo.
  2. Teve controle alimentar. Como de tudo, pouco. Aumentei um pouco a ingestão de proteína. Reduzi um pouco o carboidrato.
  3. Teve acompanhamento profissional.
  4. Teve respeito ao corpo e aos limites.
  5. E tem a resposta metabólica, cada um tem a sua.

Assim foram embora 10 quilos de novembro pra cá, sendo sete desde janeiro, quando intensifiquei a atividade física. Perder peso não é a parte mais difícil do processo. A manutenção do peso, sim. Sabe-se que 80% das pessoas que perdem peso não conseguem manter e acabam por reganhar todo peso perdido.

Alguns estudos têm se debruçado sobre este problema. Semana passada, a pesquisadora Maria Van Baak, da Holanda, apresentou no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto, em Portugal,  uma avaliação de estudos (metanálise) sobre variáveis na recidiva de peso após a perda de peso por reeducação alimentar. Existe uma crença de que perder peso muito rapidamente seria um fator para reganho. Em sua palestra, Van Baak destacou que o tempo da perda de peso não influencia o reganho, ou seja, perder peso rápido ou mais lentamente não teria impacto sobre o reganho de peso. Também não se observou associação com o tamanho dos adipócitos (células que armazenam gorduras e regulam a temperatura corporal) e a recidiva do peso.

Em relação à genética, as análises não identificaram um único gene responsável pelo reganho de peso após perda de peso por reeducação alimentar, mas uma associação de genes poderia ter algum efeito.

O único fator relevante identificado nas análises foi a perda de massa magra durante o processo de perda de peso, por reduzir a taxa metabólica basal (quantidade mínima de energia/calorias necessária para manter as funções vitais do organismo em repouso – McARDLE e col., 1992 . Pode variar de acordo com o sexo, peso, altura, idade e nível de atividade física). “Nesse aspecto, se torna imprescindível a prescrição de exercício físico, com ênfase no exercício resistido, para um processo eficaz de perda de peso, evitando o reganho, assim como o aumento da ingestão de proteína”, ressalta o endocrinologista da Universidade Federal de Pernambuco, Fábio Moura, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

O especialista lembra que não existe muita diferença, em relação à perda de peso, em pessoas que se submeteram à dieta e as que se submeteram à dieta acompanhada de exercício físico, mas há muito diferença caso se observe a composição corporal.

Bom, tudo isso, eu estou observando na prática. Já estive mais magra, em peso, do que estou agora, mas minha composição corporal nunca foi tão saudável: menos gordura, mais massa magra, boa hidratação. Porque estou firme na atividade física e no controle alimentar: os dois juntos. A minha disposição também mudou muito. Como faço ioga, a flexibilidade está muito melhor de uns tempos pra cá; e a meditação e o tênis (pratico uma vez por semana) me ajudam com o estresse e a ansiedade do dia a dia.

Nem tudo é perfeito. Tem dia de preguiça. Tem dia que quero pizza. Tem dia que quero cerveja. Tem dia que não faço os controles. Mas vou me respeitando. Um dia de cada vez. Se dou uma escorregada em um dia, conserto no dia seguinte. Sem estresse, sem pressão, sem cobrança. Tem dado certo!

Hoje é o dia… #DiaMundialdoDiabetes. Quais são nossos desafios?

Hoje, eu dei uma entrevista para um canal chamado CNT sobre diabetes. Fazia tempo que não era procurada. Relutei, ia indicar outra pessoa, mas acabei topando. Foi bom. Faz tempo que não escrevo por aqui. Tenho tido muito desafios de um tempo para cá, que tento equilibrar com os cuidados com o diabetes. Não. Não é fácil: maternidade, casa, trabalho, clientes… Mas vamos indo.

Tem uma coisa que me incomoda. Que penso ser nosso maior desafio: tornar o tratamento de qualidade acessível a todos. Eu vou lá, posso comprar o melhor glicosímetro, abastecê-lo com as fitas, quando necessário. Posso medir algumas vezes por dia. Pesa no bolso? Sim, pesa. Mas fico pensando nas pessoas que não têm acesso ao aparelho, aos insumos, às insulinas. A gente até “vende” a ideia de que viver com diabetes é possível. Sim, é. Mas com apoio, com suporte, com atendimento e orientação de uma equipe multidisciplinar… Não é o que temos. Está longe da realidade.

Recebi um convite da jornalista Vanessa Pirolos (ADJ), hoje, e aceitei. Uma audiência pública sobre a Precisão dos Glicosímetros entregues em postos de saúde. Um tema de extrema importância. Como conseguir um mínimo de controle se os aparelhos entregues não podem garantir precisão? Convido a todos a participar: clique aqui.

Outra iniciativa lançada há alguns anos pelos blogueiros de diabetes é uma campanha para que o teste do dedo faça parte do protocolo em pronto-atendimentos. Eu mesma fui ao PA esses dias, por conta de uma amigdalite, e fiquei esperando a enfermeira do pré-atendimento pelo menos perguntar se eu tinha diabetes. Ela não perguntou. Teste então… Isso porque que eu estava em um dos hospitais mais renomados de São Paulo. E por esse Brasil adentro?

Não posso deixar de destacar o trabalho da blogueira Luana Alves, do “A Diabetes e eu” e o Mapa do Descaso, onde ela rastreia onde faltam insumos para o tratamento e controle da doença. Vale a pena conferir:

Tem todo o trabalho e engajamento da Sarah Rubia Baptista, também blogueira, do “Eu, meu filho e o diabetes

Todo blog, entidade, associação, pessoa que se dispõe a falar sobre diabetes de forma responsável, espalhando informações sérias, experiência e vivências merecem nosso agradecimento. É assim que se muda comportamento, que se conquista melhores condições para todos.

Que possamos fazer a nossa parte para que cada vez mais pessoas tenham acesso à informação em diabetes e, mais que isso, a um tratamento digno.

#diamundialdodiabetes

 

 

Diabetes: abordagens “chocantes” dão resultado?

Imagine você entrar em uma loja e dar de cara com esta parede? Não sacou ainda o que é? É uma espécie de IML de pés. Ou um cemitério de pés. Sim, isto mesmo! São sapatos de pessoas que tiveram de amputar o pé por conta do diabetes mal controlado. Eu achei bem chocante. Incomoda. Faz refletir? Ou deprime? O que você acha? Você é a favor de abordagens chocantes?

pesmortos

A foto, de uma loja de Londres, foi postada por um amigo meu, o Danilo Janjacomo, que me marcou. Não tem jeito, sempre que alguém que me conhece vê alguma coisa relacionado ao diabetes, é automático, sempre lembram de mim. A mensagem no tag traz o nome, o gênero, a idade da pessoa no momento da amputação, e a data em que ocorreu. A mensagem em baixo diz: “Este sapato representa um dos 136 pés perdidos por causa do diabetes a cada semana na Inglaterra”. A campanha alerta para a importância dos exames de diagnóstico.

Bom, se já me choquei com a imagem acima, a de baixo me fez sofrer!

A campanha foi criada para uma associação de diabetes da Tailândia, pelo desinger thai, Nattakong Jaengsem, intitulada Sweet Kills (doces assassinos, em tradução livre). A intenção foi chamar a atenção sobre o impacto do diabetes descontrolado na cicatrização e o risco de complicações. São feridas feitas de doce.

Confesso minha ignorância sobre as taxas e impacto do diabetes na Tailândia. Na Inglaterra lá está: 136 pés dão adeus a seus donos a cada semana.

Particularmente não gosto de abordagens chocantes.

A primeira é mais discutível, passível de debate sobre se é ou não uma boa abordagem.Esta semana mesmo estava no cabeleireiro e falei em diabetes. Uma moça que estava lá ouviu e disse que tinha tido diabetes gestacional. Perguntei se o diabetes tinha progredido ou regredido após o nascimento da filha. A resposta? Ela não sabia dizer, porque não fez os exames. Mas ela tinha os seguintes sintomas: sede, urina várias vezes ao dia, sono, feridas que não cicatrizam desde dezembro (7 meses). Não sou médica, mas o diagnóstico é praticamente certo: ela tem diabetes! E mal controlado! Não disse isso a ela com essas palavras, mas a orientei a procurar seu médico o mais rápido possível e disse que todos os sintomas que ela citou são diabetes mal controlado. Pensando nessa persona, talvez, sim, uma abordagem chocante funcione.

Sabemos que mais da metade das pessoas que têm diabetes nem ao menos sabem que tem. As pessoas demoram em média 7 anos para descobrir o diabetes. Refiro-me ao diabetes tipo 2, já que o tipo 1 é muito mais sintomático, e o diagnóstico tardio pode ter graves consequências em curto prazo, enquanto o tipo 2, a longo prazo. Consequências incapacitantes: cegueira, neuropatia, nefropatia, problemas cardiovasculares, entre outras. E a temida amputação!

A segunda campanha é chocante? Muito. Uma pessoa recém-diagnosticada entraria em depressão ao se deparar com ela. Sei lá… Mas pode ter o poder de mostrar que não diagnosticar e não cuidar tem graves impactos. O problema dela é que reforça uma ideia totalmente errada, de que o açúcar é o grande vilão no surgimento do diabetes. Não é assim! Sabemos que o diabetes tipo 2 tem causas multifatoriais e comer açúcar não leva ao diabetes diretamente. O consumo alto de doces e açúcar estaria ligado ao aumento do peso, e consequentemente, ao diabetes. Mas tem outros fatores nessa conta: hereditariedade, estilo de vida (tabagismo, alimentação, sedentarismo).

Desconheço estudos que meçam a efetividade de campanhas negativas ou positivas, devem existir… Neste blog não uso óculos cor de rosa, mas continuo apoiando a abordagem positiva, o acesso à informação, a visão de que cuidando é possível viver com diabetes. E você?