Uma história que daria um livro



Por Luciana Oncken

 

Ricardo Fernandes atua, hoje em dia, como produtor rural. Filho de Antônio Domingos Fernandes e Marília Sampaio Fernandes, aos 52 anos, fala aqui como o controle do diabetes é importante para a manutenção da saúde. Ricardo é carioca, mora em Petrópolis e é o único na família que tem diabetes tipo 1. Há 47 anos, ele convive com a doença. Ele nos conta que já foi controladíssimo na infância, passou por uma fase de descontrole por volta dos 30 anos, mas escolheu viver e viver bem com o diabetes. Foi atrás, descobriu tratamentos por conta própria e acreditou. Mais que isso, ele passou a dar apoio a outras pessoas portadoras de diabetes. Hoje, ele é moderador de uma comunidade no Orkut chamada Diabetes Brasil, que reúne mais de 4,5 mil pessoas em torno do tema. Aqui, ele mostra como uma atitude positiva pode mudar o curso de uma história, a sua história, a história de Ricardo.

***

MINHA HISTÓRIA

O começo

“Tenho amigos que vivem insistindo para eu escrever um livro. Principalmente os médicos. Acho que se fosse colocar essa idéia em prática começaria a história no dia do meu aniversário de 5 anos, quando chegou o diagnóstico da diabetes.

Sempre convivi bem com o diabetes. Para mim, foi até tranquilo saber que era diabético. Eu era muito pequeno e tive de entender desde cedo o que se passava com o meu organismo. Meus pais tiveram uma importância quase absoluta na forma como eu encoro a doença. Eles tiveram a capacidade de me fazer feliz, independente de qualquer coisa. Cresci sem nenhuma frustração ou complexo de qualquer natureza.

Não me lembro muito bem do meu primeiro médico, mas meus pais tinham uma ótima relação com ele, que orientou o meu caminho para chegar até aqui. Em 1960, as perspectivas para portadores de diabetes tipo 1 eram de dez anos de vida saudável no máximo! Tive a felicidade, a sorte e o privilégio de cair na mão de um dos mais iluminados mestres de endocrinologia que o Brasil já teve: Dr. Luciano Decurt. Essa pessoa extraordinária conversou com meus pais e explicou minhas sombrias chances. Mas deixou em aberto a perspectiva de uma luz. Palavras dele:

– Seu filho tem dez anos de vida normal. Transformem-no num atleta e terá chances de uma vida normal.

Mas, para mim, o médico e a equipe de saúde como um todo representam 50%, não mais do que isso, nos resultados do tratamento. A família e o próprio diabético tem um papel essencial, porque eles é que têm de entender e cuidar da doença. Sem essa parceria, as coisas não funcionam.

Meus pais seguiram à risca a orientação do médico. Passei a praticar natação de manhã; judô, à tarde. Meus fins de semana tinham sempre muito exercício. A escola foi relegada para o segundo plano, fiquei três anos no primeiro ano primário!

Ser diabético ficou um milhão de vezes mais fácil hoje. Os tratamentos são mais eficientes. As pesquisas e os medicamentos evoluíram muito. Naquele tempo a insulina utilizada era de origem bovina, muito diferente da insulina humana. As agulhas de aço acabavam obstruídas e eram utilzadas seringas de vidro. Para esterilizar o material, usava-se um fogareiro a álcool. Era um tratamento muito doloroso. O controle era feito com uma dieta rigorosa. Prescrevia-se dose única de insulina pela manhã e nada mais. Não havia como medir glicemia, o exame em laboratório demorava de dois a quatro dias.”

Juventude

“Até os vinte anos, segui sem problemas. O ápice da minha história, caso eu estivesse escrevendo o meu livro, seria quando fui desenganado, aos 30 anos. Entrei na fase adulta com um bom ganho financeiro. Eu passei a freqüentar festas, viajar, namorar e cometer excessos que prejudicaram o meu bom controle.

O resultado: em 1989, aos 34 anos, surgiu uma retinopatia não proliferativa, tratada com laser. Em 1991, tornou-se proliferativa, degenerativa. Fui desenganado quanto à visão. Aí fui para Boston, tratar-me na Joslin e na Retina Association. Fiz uma pan-fotocoagulação. Lá também foi constatada-se uma nefropatia significativa.

Apavorei-me, com 36 anos, em plena ascendência profissional e desenganado. Sentia um misto de revolta e espanto. Comecei a pensar na estrutura do problema. Estudei muito. Consultei e conversei com todos e consultei tudo que estivesse ligados à pesquisa de patologias ligadas à diabetes. Percebi que a única coisa a se fazer era manter um controle absoluto da doença. Foi o que fiz.

Depois, por indicação de uma amiga endocrinologista, comecei a usar a bomba de insulina, o que facilitou a minha vida.”

Correndo atrás do prejuízo

“O medo, a revolta e, finalmente, a percepção da necessidade de entender a doença e saber como tratá-la mudou o curso da minha história. As doenças associadas ao diabetes, aos poucos, regrediram, ou estacionaram. Da retinopatia, restou a seqüela do tratamento de fotocoagulação por laser. A nefropatia desapareceu totalmente. A neuropatia persiste como na fase inicial, discretamente.

Eu gostaria de ser lembrado como alguém que sempre tentou ajudar seus semelhantes, principalmente os diabéticos. E o sujeito mais teimoso do mundo! Afinal, desde que me conheço como diabético, tenho a vontade, até mais que isso, tenho a necessidade de ajudar os que precisam de alguma coisa ligada ao diabetes. Cheguei a levar mendigos diabéticos para a minha casa. Fundei uma associação, gastei todo meu dinheiro com ela.

Hoje não posso mais fazer essas coisas, por isso criei uma comunidade chamada Diabéticos Brasil, no Orkut. É a versão digital do que passei a vida toda fazendo. Fico de plantão tentando fazer o possível. Formei um ciclo de amizades e passei a conhecer um novo tipo de diabético. Gente bonita, jovens, com bom conhecimento! Abriu-se um novo horizonte para mim. Ajudo e sou ajudado, aprendo e ensino, ao mesmo tempo. Isso é muito gratificante.

Hoje, quem cuida do meu diabetes sou eu. Tenho a melhor médica do mundo, a Dra. Solange Travassos. Ela sempre que ela me convence de alguma coisa, sigo à risca suas determinações.”

O Futuro

“Acho importante todo tipo de apoio. Nosso controle, na verdade, é um doloroso exercício de persistência. Tenho alguma experiência nisso, não só por mim, mas também pelo que presenciei no auxílio a muitos diabéticos. Digo uma coisa: não tenha glicemias acima de 180 mg/dl. Não faça hipos severas. Coma com moderação.

Eu acredito na cura do diabetes e que ela virá logo. Se o governo não criar barreiras para o uso de células-tronco, em pouco tempo teremos boas novidades.

Entendi uma coisa que deixo para vocês: só existem dois tipos de diabéticos, os vivos e os mortos. No entanto, existem muitos diabéticos mortos que ainda estão vivos. É só uma questão de tempo. Não há para onde correr, se não cuidar dela, ela te engole!”

**
Participe você também. Conte a sua história: vivercomdiabetes@yahoo.com.br

4 ideias sobre “Uma história que daria um livro

  1. waldir dias

    Ricardo, Boa Noite!

    Sou diabético do tipo 2 e vou passar por um procedimento cirurgico para cura da doença. Voçê tem conhecimento?

    Um Abraço

    Waldir Dias

    Resposta
  2. Taís Queiróz

    Olá Ricardo . . .
    Li sua historia de vida. . . e confesso pra vc ki eu gostei mto, eu sou portadora da Diabetes tipo l á 6 anos.
    Eu descobri quando tinha 13 anos de idade. . . e como vc ja passou por isso, essa foi uma fase mto complicada na minha vida que causou algumas complicações na minha vida até hoje. . . .
    Fico espantada com sua força de vontade, que hoje é algo que não tenho mais, ou até mesmo não acredito.
    Mas de qualquer forma foi muito bom pra mim mesma ler toda essa história. . .
    Mto obrigada

    Resposta
  3. Etelvino Alves Martins

    Sr.
    Ricardo Fernandes, você é um vencedor. Eu tenho um
    filho com 20 anos, no qual eu amo muito, ele tem diabete
    do tipo 1, foi descoberta 24/09/2007, ele toma insulina
    4 vezes por dia, quero saber com Você qual a possibilidade
    de um dia ele para de tomar insulina e viver um vida normal?

    Obrigado

    E um grande abraço.

    Resposta

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