“Mas, pensa, se não fosse tudo isso, talvez, tu não fosse essa pessoa massa que tu é”


Foi essa a resposta do pai de Briza Mulatinho quando ela disse que não aguentava mais viver com Diabetes. Acolhimento. Amor. Cuidado. São coisas que fazem diferença no tratamento.

Briza é de Recife e foi uma das primeiras seguidoras do meu blog, antes de Facebook, há 11 anos. Aqui no blog criamos um Fórum e era ali que trocávamos ideias. Eu, Briza, Roberta (do Japão), e mais um monte de gente bacana. E foi naquele Fórum que descobrimos que não estávamos sozinhas. Veio o Face, o meu contato e de Briza se estreitou. Ela é de uma sensibilidade ímpar, se expressa com as palavras como poucos, com muito amor e intensidade. E ela mandou este relato lindo aqui para o Viver com Diabetes

Sou diabética tipo 1 há 23 anos. Não vamos especular, que idade e um negócio sério… Mas, me descobrir portadora de uma doença crônica em 94, não foi nada fácil. Não que seja em 2017, mas deixa eu explicar: nessa época, a gente não tinha acesso às informações que tem hoje. Em casa, ninguém entendia como uma adolescente saudável tinha desenvolvido um problema tão sério, de uma hora pra outra. As insulinas não eram tão eficientes. Os insumos muito mais caros. Produtos diet, puffff, difíceis de encontrar e impossíveis de comprar pra quem não tinha lá muita grana. Fora isso, não fiz terapia, não participei de grupos de apoio, aprendi a lidar sozinha com todo processo do que comer, quando, de quanto insulina tomar, dos exames que tinha que fazer e essa rotina que a maioria de vocês conhece tão bem. Paralelamente, ouvia absurdos: “tão novinha e tão doente”, “nunca vai ter saúde na vida”, “eita, vai acabar tendo que amputar as pernas”, “meu avô morreu diabético, cego e com os rins sem funcionar”.
 
Vinte e três anos depois, não tenho nenhum problema adicional por causa da diabetes, nunca fiquei interna, tive hipo e hiperglicemias que consegui dar conta sozinha. Ok, faço um controle rigoroso e sei do cansaço que dá. Tive Síndrome do Pânico e fui várias vezes pra emergência, certa de que tava morrendo. Hoje, faço análise, mas por outros motivos, porque a vida é muito mais que o pâncreas não funcionar. A cabeça e o coração, às vezes, também emperram. E sim, tô falando figurativamente, não se assustem.
 
Mas, em muitos, muitos momentos, achei que a vida seria mais fácil sem precisar ter esse cuidado constante. Ah, só pra esclarecer, minha glicemia é dessas complicadas que vai de 20 a 200. Então, meço umas 10 vezes por dia pra saber o que fazer: comer, não comer, comer o quê, tomar insulina, qual, quanto. Já chorei e chorei e chorei pensando nisso. Mais de cansaço, que de qualquer outra coisa. Por ter que ir trabalhar e agir normalmente com glicose lá pelos 400. Por acordar de madrugada com glicose super baixa e não querer incomodar ninguém. Pelos exames que a gente faz e tem um medo danado do resultado. E podia continuar aqui, fazendo uma lista gigante…
 
Acontece que, na maior parte do tempo, a gente faz isso meio no automático, mas quando para pra pensar “puxa vida”, né? Numa dessas vezes, conversando com meu pai, falei a respeito, que não queria, que era um saco, que não aguentava, que me sentia exausta. Aí, ele disse: “mas, pensa, se não fosse tudo isso, talvez, tu não fosse essa pessoa massa que tu é”. E eu ri. E senti calorzinho no peito. E pensei: “né, que é mesmo?”.
 
Certamente, não seria. Porque foi um susto pra mim, em 94, descobrir que nem sempre a gente vai ao médico, ele passa um remedinho e a gente fica boa. Às vezes, não fica. Mas, foi aí também que aprendi o quanto a vida é frágil e urgente e a gente precisa aproveitar tudo muito! Porque uma chance que se tem agora, pode não se repetir. Aprendi também que por mais que as pessoas amem e cuidem da gente, a dor e a alegria (e isso vale pra tudo) são absolutamente pessoais e intransferíveis. Então, segue teu coração. Vai em frente, vai na fé, na intuição, que dá certo. E caso não dê – também acontece – foi uma experiência, um aprendizado, uma história pra contar.

O fato é que a diabetes faz parte da minha vida, mas não é o centro dela. Nunca deixei de fazer absolutamente nada por causa disso. Pelo contrário, acho que fiz muito mais. Pra me provar capaz. Matando não um, mas vários leões por dia. E isso é uma riqueza na vida. Eu acho. E queria que tu entendesse e achasse também. Às vezes demora pra ficha cair, mas cai. Às vezes, a gente fica pra baixo e acha que é uma droga isso tudo, e é.
 
Mas, olha, todo mundo nesse mundo tem problema. E todo mundo nesse mundo vai ter que, de um jeito ou de outro, lidar com ele. Ou com eles, melhor dizendo. O negócio é descobrir o seu jeito de fazer isso. Sempre ajuda tentar se aceitar e entender que tudo que você traz consigo é parte de quem você é. E vou te contar um segredo: você é do jeitinho que tem que ser. Assim, exatamente.

Uma ideia sobre ““Mas, pensa, se não fosse tudo isso, talvez, tu não fosse essa pessoa massa que tu é”

  1. Daniele Martha

    Ontem eu acordei naqueles dias que não são dos melhores… E hoje, lendo este post, eu pude ser lembrada de tudo o que acredito. Valeu!!!

    Resposta

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