O emocional e o psicológico de quem tem diabetes, por Briza Mulatinho


Descobri que era diabética na adolescência, uma fase complicada por natureza e que ficou mais complicada ainda pelo desafio de lidar com uma doença crônica. Nessa época, a gente não tinha o acesso à informação que tem hoje. Os medicamentos e insumos não eram tão eficientes, fora que bem mais caros e mais difíceis de encontrar. Produtos diet uma mini fortuna. Minha família não sabia nada sobre diabetes tipo 1, muito menos eu. Pensei: “pronto, minha vida acabou”. E com quem dividir esse peso? Não fui pro psicólogo, nem pra grupo de apoio e não conhecia NINGUÉM que passasse pelo mesmo problema. Ouvia comentários do tipo: “tão novinha (que podia ser também “tão bonita”) e tão doente”, “ela nunca vai ter saúde na vida”, “eita, vai acabar ficando cega ou tendo que amputar as pernas”, isso só pra começo de conversa. Dá pra imaginar a pressão?

 

Aí, o que eu fiz: decidi que a diabetes NÃO IA ser o centro da minha vida, que eu NÃO IA ser um fardo pras pessoas a minha volta. Nem família, nem amigo, nem namorado. E pra que isso acontecesse, eu não podia falhar. Mas, veja bem: não podia falhar nunca! Comecei com um controle super rigoroso (que mantenho até hoje) e essa foi a parte boa (embora difícil pra caramba). A parte “ruim” foi achar que tinha que ser forte O TEMPO INTEIRO. Mesmo com a glicemia na casa dos 400. Mesmo com a glicemia na casa dos 40. Eu era forte, eu segurava a minha onda e não me dava o direito de ser fraca ou frágil. Hora nenhuma. Isso porque eu não entendia que todo mundo precisa ser fraco, frágil, pedir ajuda e colo, às vezes. E que isso não tinha nada a ver com ser diabético ou ter uma doença crônica. É da vida, sabe? E da vida de todo mundo.

 

Resultado: desenvolvi Síndrome do Pânico. Coisa que só descobri 3 anos depois de muitas emergências de hospital. E detalhe importante: na maioria das vezes, ia sozinha, mesmo achando que ia MORRER. Pensava: “se o médico achar que é isso mesmo, ligo pra alguém”. E ficava lá na sala de espera, tentando acalmar o coração, o pensamento e a respiração. Sem a menor chance, né? O diagnóstico era sempre o mesmo: “você deve ter tido uma hipo ou uma hiperglicemia e não percebeu”. Eu insistia que não era isso, porque sabia que não era isso, mas como tava com a glicose ok, pressão ok, batimentos ok, me mandavam pra casa. Pense num sofrimento! A sorte foi encontrar uma cardiologista casada com uma pessoa que tinha o mesmíssimo problema e que teve “certeza” que ele tava infartando, quando era SÓ uma crise de pânico. Fiz tratamento e, quanto a isso, fiquei bem. Mas, ainda é difícil pra mim pedir ajuda e perceber que não consigo ser forte o tempo inteiro, por um monte de motivos, que não tem NADA a ver com diabetes.

 

Vamo junto? Entender, aprender e aceitar que sim é preciso relaxar, sim não dá pra ser “forte” o tempo inteiro, sim é normal ter medo, sim é preciso pedir ajuda, colo e apoio. E o mais incrível: isso não faz da gente um peso, isso faz da gente humano.

 

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