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Ser visto como indivíduo e não a partir da doença…

… e ser for para ser visto a partir do diabetes, que seja pelo lado bom

Talvez seja esse o nosso principal desafio, seja no trabalho, seja na família, entre os amigos. Afinal, não são poucas as pessoas que vêem o diabetes apenas como um agente limitador. Cabe a nós mostrar que não é assim.

Somos o que somos, independente da doença. Mas e seu te disser que podemos reverter o diabetes a nossa favor, já que temos de desenvolver algumas outras habilidades? Porque se é para sermos vistos a partir do diabetes, que seja do lado positivo. Vamos lá!

– Uma pessoa com diabetes muito provavelmente é uma pessoa mais disciplinada.

– Uma pessoa com diabetes possivelmente é uma pessoa multifocada, porque, além de todos os afazeres do dia, consegue realizar várias outras ações relacionadas ao controle da glicemia.

– É comum encontrar entre os diabéticos uma característica muito importante tanto para as relações de trabalho quanto para as relações pessoais: a resiliência – aquela capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, sem entrar em surto psicológico.

– Muitas vezes, diabéticos cuidam melhor da saúde, com controle alimentar, atividade física, o que representa um ganho em disposição e redução de afastamentos.

O que mais?

Portanto, se alguém te julgar a partir do diabetes, argumente, mostre do que você é capaz.

Contar ou não que é diabético?

A Tânia deixou um comentário, na semana passada. Ela contava que havia descoberto a doença muito recentemente e que havia sido convidada para um rodízio de pizza com os amigos. Tinha dúvida sobre como se comportar e sobre o que comer.

Claro que não sou nutricionista, mas uma dica aqui é certa: coma o mínimo de pizza possível, no máximo dois pedaços, e se tiver massa fina (normalmente os rodízios têm). Para compensar, e não ficar com vontade de comer um monte de pizza, coma muita, mas muita salada antes. A salada dá uma sensação de saciedade e você sentirá menos fome.

Fiquei feliz com a resposta de Tânia. Ela disse que foi o que fez e que parecia um coelho. A sua última dúvida era se devia contar às pessoas sobre o diabetes. E eu respondi:

Olha, Tânia, eu falo para todo mundo, mesmo antes de ter o blog, já falava. Depende de você. Caso se sinta à vontade com o distúrbio, fale. Mesmo porque, até desperta nas pessoas aquela preocupação de fazer um exame para conferir a saúde. Mas, prepare-se para várias perguntas. E as mais diversas reações, principalmente, as de pena, que irritam um pouco. Se gosta de privacidade, não fale. Por outro lado, quando você fala, as pessoas passam a respeitar as suas escolhas à mesa, sem achar que é frescura sua.

E quanto a vocês, leitores? Vocês contam ou não que são diabéticos? Qual é a reação das pessoas?

O que é ser saudável?

Quero muito acreditar que empresas que agem assim, como a Karin nos descreve, sejam minoria:

Com respeito às empresas que relutam em contratar pessoas diabéticas, isso acontece, sim!!! No início do ano fiz uma entrevista para trabalhar em uma multi aqui de Curitiba. Precisei ser sincera e mencionei minha doença. Bah, você tinha de ver a cara da psicóloga. Eu examinei tão atentamente aquele olhar abismado! Deu pena! Pena, porque eu me considero uma pessoa determinada e ágil no trabalho que faço. Então, ela me fez muitasssss perguntas sobre a doença, e eu respondi a todas elas, sem medo. Agora, me pergunto, será que devo ocultar esse tipo de informação? Afinal, meu sucesso está em jogo. A menina que contrataram não tinha experiência alguma como secretária executiva, agora, em contrapartida, eu trabalhei por dois anos como secretária da diretoria em uma concessionária (tenho muito conhecimento nessa área). Mas eles deram preferência a uma pessoa “saudável”. Agora, me pergunto, o que é ser saudável? É ter um rostinho bonito e um corpo esguio? Qual o parâmtero para “saudável”. Conheço lindas mulheres que carregam consigo o fardo de doenças incuráveis por terem levado uma vida promiscúa e desregrada. Qual a linha que separa o saudável do doente. O que é ser doente, afinal??? Acho que ser doente de verdade é ser doente de espírito. É ser falso de coração e arrogante. Ser doente de verdade é ter um coração cheio de raiva e de ódio. Isso, sim é ser doente. Melhor dizendo, é um pré-doente. Por que está adiantando para si, certamente, doenças cardiovasculares, úlceras estomacais, doenças de pele e assim por diante (como o Dr. Dráuzio Varela sempre comenta e com toda a razão do mundo).

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Li, hoje, na Revista da Folha (Folha de S.Paulo) uma matéria sobre rastreamento de DNA. “O Preço do Destino – Você pagaria para saber que tipo de doença pode ter no futuro?” é o título da matéria de capa da revista, realizada por Sérgio Dávila. Ele mesmo, como repórter, se submeteu ao teste por US$ 999.

Num ponto da reportagem, Dávila fala sobre a questão de discriminação genética: “Uma empresa contrataria um funcionário se soubesse que ele tem predisposição genética para desenvolver glaucoma ou câncer de pele?”. Uma questão bem complexa. Para evitar que isso ocorra, os EUA saíram na frente com a Genetic Information Nondiscrimination Act (lei contra a discriminação baseada em informação genética), que foi chamada de “a primeira grande lei dos direitos civis do século XXI”, assinada por George W. Bush em maio deste ano. Não morro de amores por ele, mas temos de reconhecer que, nisso, ele acertou em cheio. Pela lei, os empregadores estão proibidos de contratar, demitir ou deixar de promover pessoas com base em informações genéticas.

Essa história de discriminação genética me faz lembrar aquele filme Gátaca – A Experiência Genética, de 1997, de Andrew Niccol. Vocês lembram dele? O mundo onde as pessoas não geram mais seus filhos por relações sexuais, mas somente por inseminação artificial, para poderem escolher a carga genética da prole. Os que se arriscam ao método natural geram filhos sujeitos à discriminação genética, já que para serem contratados precisam passar por testes. São considerados uma segunda classe de seres humanos. Será que é este mundo que queremos?

 

 

Estudos mostram que ter uma predisposição não quer dizer que a pessoa vá desenvolver a doença, há de se levar em conta uma série de variáveis. As pessoas que já carregam uma disfunção, como o diabetes, ficam numa situação ainda mais delicada. Mais uma vez, há de se levar em conta as variáveis. Há de se levar em conta a qualidade de vida dessa pessoa, e como ela se cuida: se pratica atividade física, se faz os exames periódicos, se tem uma boa alimentação. Isso faz diferença para qualquer pessoa, que tenha ou não alguma disfunção.

Quantas pessoas “saudáveis” são surpreendidas por infartos, AVC… sem aviso prévio? Quantas pessoas ignoram que tem alguma doença, algum problema de saúde? Quantas pessoas deixam de fazer exames periódicos, não se cuidam, estão sempre com a resistência baixa, por conta do estresse, e faltam muito mais ao trabalho do que uma pessoa bem informada sobre a sua saúde e que, por isso, tomas as precauções necessárias.

As empresas têm, cada vez mais, investido em programas para manter seus funcionários saudáveis. É bom pra todo mundo. Por isso, temos, sim, de reconhecer, muitas investem em programas de qualidade de vida, incentivando hábitos saudáveis, a prática de atividade física e de lazer. Além de proporcionar o reconhecimento profissional. Estão muito certas. São empresas inteligentes, porque sabem que vão se beneficiar de programas assim.

Calcula-se que 50% das pessoas que têm diabetes, não sabem que têm. E, normalmente, uma pessoa que sabe que tem um problema de saúde passa a ser muito mais cuidadosa do que aquele que ignora o problema. No meu caso, eu me considero muito saudável. Muito mesmo. Sou apenas uma pessoa consciente do que eu devo evitar e do que eu devo fazer para continuar saudável. Ao contrário de muitos colegas que dizem: “Prefiro nem ir ao médico. Tenho medo de ter alguma coisa. Não tô procurando doença.” Quantas vezes você já ouviu isso? Como se fato de ir ao médico fosse o causador da doença.

Preconceito: esta é a pior doença

Custo a acreditar que, em pleno século XXI, as pessoas ainda sejam tão ignorantes e preconceituosas. A Karin, uma querida leitora, relatou-me que um rapaz com quem trocava conversa acabou por se afastar dela depois que ela revelou que tinha diabetes, influenciado, ainda por cima, pelos pais, que deviam ser responsáveis por instruir e educar. Um outro portador de diabetes disse que um cliente não voltou mais em sua loja depois que ele disse que era diabético. A Paula, nutricionista sobre a qual eu escrevi ontem, também contou que, na adolescência, foi vítima de preconceito de um paquera. O menino disse que ela ia morrer solteira por ser diabética.

Às vezes, fico imaginando se existem empresas que, quando ficam sabendo que o candidato é diabético, deixam de chamá-lo para a vaga. Custo a acreditar que isso aconteça, mas o pior é que deve acontecer. Quer saber? Essas empresas não merecem a sua companhia e o esforço do seu trabalho, que independe totalmente da sua condição de diabético, mesmo porque muitos não têm absolutamente nenhuma complicação por causa da doença. Muito pelo contrário, como têm um cuidado com a alimentação, têm uma ótima saúde, estão sempre bem dispostos e, por se alimentarem em intervalos mais curto de tempo, o que não atrapalha de jeito algum a rotina, têm um metabolismo mais rápido. Ou seja, fazem tudo o que qualquer pessoa, tendo ou não diabetes, deveria fazer.

Preconceito é doença.
Informação é cura.